Entidades temem que fome se torne um dos reflexos mais duros da pandemia

Bruno Alfano, Paula Ferreira, Renata Mariz e Thiago Herdy

17/05/2020 – 04:00

Valdineide Silva da Cruz, 40 anos, diarista, com os dois filhos Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo Valdineide Silva da Cruz, 40 anos, diarista, com os dois filhos Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo

Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo — A caixa de leite na casa de Valdineide Silva da Cruz, de 40 anos, precisou ser completada com água para durar uma semana alimentando os três filhos da diarista, que viu seus clientes sumirem na pandemia. No entanto, o exercício de sobrevivência — que só foi interrompido após uma ONG ajudar a família, moradora da zona leste de São Paulo — pode deixar sequelas nas crianças, de 1, 5 e 10 anos. Uma alimentação pobre prejudica o progresso infantil, alertam os nutricionistas. Valdineide ainda não conseguiu receber o auxílio da prefeitura para a alimentação dos filhos.

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Professora do Departamento de Nutrição da Universidade de Brasília, Elisabetta Recine, do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutricional, afirma que, na idade escolar, as crianças continuam com um ritmo acelerado de progresso e acumulam condições para as etapas posteriores: adolescência, juventude e idade adulta.

— É imprescindível que prefeituras e estados garantam a alimentação dessas crianças e não coloquem em risco estudantes e suas famílias — diz. — A transformação automática do valor per capita do Pnae em um montante a ser destinado à família não é suficiente neste momento, uma vez que muitos destes estudantes estão em famílias com maisde um componente. E todos estão em situação de vulnerabilidade.

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Kely Araújo, do Conselho Federal de Nutricionistas, afirma que é justamente no momento escolar que se formam os hábitos alimentares.

— Por isso é importante a participação do nutricionista na hora de o gestor público decidir que alimentos distribuirá — argumenta a profissional.

Preocupação mundial

No fim de abril, estimativas da Organização das Nações Unidas apontaram que cerca de 370 milhões de estudantes estavam em risco, ao redor do mundo, devido à falta de merenda escolar após a suspensão das aulas devido ao novo coronavírus. Entidades internacionais chamam desde então atenção para a importância de o poder público mitigar o problema que pode se tornar um dos reflexos mais dolorosos da pandemia: a fome.

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De acordo com Marlova Jovchelovitch Noleto, diretora e representante da Unesco na nação brasileira, o quadro no país é extremamente preocupante:

 — É muito importante que a interlocução entre União, estados e municípios seja de fato eficiente neste momento.

Presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação, Luiz Miguel Martins Garcia alerta para a possibilidade de que faltem recursos para a merenda quando as aulas retornarem. Como o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) não garantiu que haverá parcelas extras para alimentação em caso de reposições de aulas que ultrapassem o calendário escolar previsto no início do ano, a preocupação é grande em municípios de todo o país.

— Sugerimos um programa suplementar de alimentação para esse momento, focado nas crianças que tivessem necessidade. Mas não foi acatado — diz Garcia.

Em março, o Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Educação enviou um ofício ao FNDE e ao MEC defendendo a utilização do cartão do Bolsa Família para transferência de recursos do Pnae para a alimentação dos alunos durante a pandemia. Os secretários se reuniram diversas vezes com o FNDE, mas sem chegar a um acordo.

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