Poluição em 2020 é menor que a de 2019 após medidas de isolamento, mas variações foram observadas após discursos do presidente

Dimitrius Dantas

14/05/2020 – 17:02 / Atualizado em 14/05/2020 – 17:12

Trânsito na Avenida das Juntas Provisorias durante quarentena, antes da mudança no rodízio feita pela Prefeitura de SP. Foto: Anderson Lira/FramePhoto / Agência O Globo Trânsito na Avenida das Juntas Provisorias durante quarentena, antes da mudança no rodízio feita pela Prefeitura de SP. Foto: Anderson Lira/FramePhoto / Agência O Globo

SÃO PAULO – A disputa política entre o governo federal e os governos estaduais e municipais sobre a adoção de políticas de distanciamento social influenciou as variações dos índices de poluição na região metropolitana de São Paulo durante o período de isolamento, segundo um estudo de pesquisadores brasileiros enviado e sob consideração da revista “Nature Communications”.

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De acordo com a pesquisa, as informações sugerem que o esforço para a redução na circulação de indivíduos, com o fechamento de atividades de indústria e comércio, tem sido parcialmente bem-sucedido. Os números indicam que houve uma queda na concentração de poluentes entre 18 e 23 de março, nos primeiros dias da quarentena. Logo após, no entanto, a concentração de poluentes voltou a subir ligeiramente, até o dia 7 de abril. Os dados foram obtidos com base na medição feita pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).

No dia 24 de março, o presidente Jair Bolsonaro, em pronunciamento em rede nacional de televisão, pediu a reabertura do comércio e das escolas, e o fim do “confinamento em massa”. Apesar da mudança na tendência de diminuição da poluição causada pelo isolamento social, os índices de poluentes em São Paulo ainda são menores do que os mesmos índices observados em 2019.

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— O que observamos é que houve uma queda significativa das concentrações de poluentes nas primeiras semanas e depois uma tendência de crescimento, acompanhado de algumas manifestações do governo federal questionando a efetividade do distanciamento — afirmou o professor Edmilson Dias de Freitas, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo.

Freitas estuda o progresso de modelos atmosféricos de previsão de tempo e sua aplicação em estudos de qualidade do ar ou impactos ambientais. De acordo com ele, o principal foco da pesquisa é a importância que a queda nos índices de poluentes pode trazer para desafogar o sistema de saúde pública. No estudo, ele e os outros pesquisadores traçaram uma correlação entre a emissão de poluentes e total de internações observadas por problemas respiratórios, principalmente aqueles causados pelo vírus influenza, que causa a gripe comum.

— Logo depois que foram introduzidos os procedimentos de distanciamento social, houve uma queda significativa na quantidade de internações acompanhada de uma queda nas concentrações de poluentes — afirma.

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Os números comunicados pelo Ministério da Saúde indicam um pico de internações por problemas respiratórios nas semanas anteriores ao decreto. Possivelmente, essas internações já eram causadas pelo novo coronavírus. Um estudo da Fiocruz, comunicado nesta segunda-feira, apontou que o vírus já circulava na nação brasileira em janeiro.

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— Historicamente se sabe que existe uma relação direta com saúde, principalmente por problemas respiratórios e cardiovasculares. É de se esperar que haja uma diminuição por problemas causados pela poluição. Com isso, temos uma diminuição nessas concentrações e uma diminuição na quantidade de problemas causados por ela, reduzindo a quantidade de indivíduos que precisam do Sistema de Saúde – diz Freitas.

Dois outros estudos, um chinês e outro americano, fortalecem a hipótese de que locais com altos índices de poluição são particularmente mais afetados pela Covid-19. De acordo com a pesquisa feita no país asiático, os altos índices de poluentes em áreas urbanas podem ser um fator para a piora da resposta do sistema imunológico ao vírus. Isso também pode explicar por que os mais afetados pela doença sejam os mais idosos – os que estão expostos à poluição por um período maior e a hábitos que afetam o sistema respiratório, como o tabagismo. Na pesquisa realizada por cientistas norte-americanos, dados de 3080 cidades no país indicaram que um crescimento na exposição de poluentes esteve associado a um crescimento de 15% na mortalidade por Covid.

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O crescimento de poluentes também pode ser um dos fatores que explicam a maior incidência da doença em regiões mais pobres. Com a dificuldade no oferecimento do auxílio emergencial pelo governo federal, boa parte da população nas periferias das grandes cidades não conseguiu obedecer às políticas de isolamento social, obrigados a saírem de casa para trabalharem.

O estudo brasileiro indicou que em alguns pontos na periferia foram observados maiores índices de alguns poluentes do que nas regiões centrais. Edmilson Dias de Freitas evita concluir as razões dessa diferença.

— A mensagem que precisamos passar é de que as indivíduos precisam ao máximo diminuir a mobilidade, diminuindo a emissão de poluentes e outras atividades que possam causar riscos à saúde. É preciso manter o distanciamento e contribuir para reduzir o estresse do sistema de saúde, sendo necessário analisar cuidadosamente quais as melhores maneiras de se fazer isso.

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