LONDRES – A ciência da vigilância de esgoto pode ser implantada em países de todo o mundo para ajudar a monitorar a propagação de epidemias da Covid-19 e reduzir a necessidade de testes diagnósticos em massa, dizem cientistas.

Especialistas na área — conhecida como epidemiologia de águas residuais — dizem que, à medida que os países começam a diminuir as restrições de lockdown da pandemia, a busca de sinais do Sars-CoV-2 no esgoto pode ajudar a monitorar e reagir a surtos.

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Estudos preliminares pequenos realizados por grupos de pesquisa na Holanda, França, Austrália e outros lugares encontraram sinais de que o vírus causador do Covid-19 pode ser detectado no esgoto.

“A maioria das indivíduos sabe que exalamos um bocado desse vírus pela respiração, como unidades em gotículas saídas dos pulmões, mas poucos sabem que na verdade emitimos mais unidades de vírus pelas fezes”, disse Davey Jones, professor de ciências ambientais na Bangor, na Grã-Bretanha. Universidade.

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Isso sugere que, em uma escala mais ampla, a amostragem de esgoto seria capaz de estimar a quantidade aproximado de indivíduos infectadas em uma área geográfica, sem necessidade de que se teste todas as indivíduos ali.

“Toda vez que uma pessoa é infectada com Covid-19, ela começa a lançar vírus no sistema de esgoto”, disse Jones. “Estamos usando isso e rastreando as atividades de toalete das indivíduos”.

Essa técnica já foi usada para monitorar ameaças à saúde e doenças virais antes. É uma ferramenta crucial no combate a outras doenças, e cientistas britânicos também a usam para monitorar genes de resistência a antibióticos da pecuária.

— A epidemiologia de águas residuais faz parte do monitoramento da infecção pela poliomielite em todo o mundo, portanto não é completamente nova. Mas nunca foi realmente aplicada dessa maneira a um surto — diz Alex Corbishley, veterinário do Instituto Roslin de Edimburgo, que está executando um projeto piloto de três meses para rastrear o Sars-CoV-2 em águas residuais na Escócia.

— A idéia é usar isso como uma maneira relativamente barata e ampliável, o que é até mais importante, para determinar ‘há uma quantidade X de transmissão’ em tal comunidade.

Material não infeccioso

Cientistas que conduzem estudos iniciais de esgoto com Covid-19 na Europa e na Austrália enfatizam que o que estão captando não é um vírus infeccioso vivo, mas partículas mortas ou fragmentos do material genético do vírus.

Num estudo piloto em Queensland, na Austrália, pesquisadores foram capazes de detectar um fragmento genético do Sars-CoV-2 no esgoto de duas estações de tratamento.

Na Holanda, epidemiologistas de esgoto agiram antes do surto de Covid-19 e coletaram amostras de sete cidades e de um grande aeroporto em fevereiro e março.

Embora não tenham encontrado nenhum vírus detectável três semanas antes da detecção do primeiro caso Covid-19, em 5 de março — apenas uma semana após a confirmação do primeiro caso — eles foram capazes de detectar fragmentos de vírus.

“A detecção do vírus no esgoto, mesmo quando a prevalência da Covid-19 é baixa, indica que a vigilância do esgoto pode ser uma ferramenta sensível para monitorar a circulação do vírus”, escreveram os pesquisadores em um artigo preliminar publicado no site MedRxiv.

Pesquisadores em Paris publicaram descobertas em abril que mostraram como a amostragem de águas residuais na cidade durante um mês acompanhou a mesma curva da epidemia crescente e decrescente na região.

Poucos países têm recursos ou estrutura para testar todas as indivíduos. A maioria é capaz apenas de testar profissionais de saúde ou pacientes com sintomas graves, candidatos a internação. Isso significa que autoridades têm apenas informações limitadas sobre a disseminação do novo coronavírus, e é difícil saber quando está afetando algumas comunidades mais do que outras.

— Esse tipo de vigilância pode ser usada como  ferramenta de saúde pública — disse Andrew Singer, pesquisador do Centro Britânico de Ecologia e Hidrologia, que está trabalhando com Davey e outros em projetos piloto de testes de esgoto de coronavírus no Reino Unido. — A vantagem dessa abordagem é que o investimento é bastante barato, e rende frutos, não apenas para esta pandemia de coronavírus, mas também por futuros surtos.

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