Estudo chinês aponta queda na qualidade do sono da equipe médica que trabalha na linha de frente de combate ao novo coronavírus

A pandemia do novo coronavírus não tem causado apenas sofrimento físico à população mundial. Um estudo conduzido por pesquisadores da China indicou elevação nos níveis de estresse, insônia e distúrbios psicológicos, principalmente entre as equipes médicas na linha de frente contra a covid-19. O trabalho constante para salvar vidas fez com que a Organização Mundial da Saúde (OMS) manifestasse preocupação com a saúde mental desses profissionais.

O desgaste mental causado pela covid-19

Médicos e enfermeiros passam por altos níveis de estresse durante a pandemia. (Fonte: Shutterstock)

Os mais de 3,5 milhões de casos de coronavírus confirmados no último relatório da OMS vêm causando sobrecarga no sistema de saúde de diversos países. Com leitos lotados, existe uma constante pressão para que as equipes médicas recuperem vidas e liberem espaço para novos pacientes.

Em contato direto com o vírus, os profissionais da saúde compõem uma das parcelas da população mais expostas à doença. Além de trabalhar no limite para cuidar dos enfermos, é preciso ter atenção colocada em dobro com a própria saúde.

Limitações causadas pelos equipamentos

O relatório liderado pelo Dr. Bin Zhang, um dos pesquisadores envolvidos nos estudos chineses, aponta que médicos e enfermeiros devem estar protegidos com diversas camadas de equipamentos por longos períodos, o que gera limitações nos movimentos e nas atividades.

De acordo com Zhang, para evitar retirar o equipamento, o time médico fica impossibilitado de comer, beber ou ir ao banheiro durante toda a jornada de trabalho, o que pode durar mais de 12 horas. Durante esse tempo, muitos profissionais passam o expediente desidratados e podem até mesmo desenvolver cistite e erupções cutâneas.

As longas jornadas de trabalho e a gigante carga de responsabilidade fazem com que os membros da equipe médica entrem em um ciclo vicioso negativo. É comum que carreguem o estresse do cotidiano para casa e comecem a ter insônia, o que, consequentemente, gera mais estresse.

Diversas camadas de proteção são necessárias para evitar a transmissão da doença entre pacientes e médicos. (Fonte: Shutterstock)

Em períodos de crise, estima-se que uma a cada cinco indivíduos apresente algum distúrbio mental como mecanismo de resposta, como aponta a OMS. Depressão, ansiedade, crescimento no consumo de álcool e estresse pós-traumático são alguns dos sintomas que aparecem duas vezes mais durante épocas delicadas.

Analisando 1.563 participantes da pesquisa, a equipe do Dr. Zhang conseguiu estabelecer alguns fatores que tornariam um membro da linha de frente de combate ao coronavírus mais propenso a apresentar sinais de problemas psicológicos e insônia. Segundo o documento, 36,1% dos entrevistados tiveram maior nível de dificuldade para dormir durante a pandemia, o que coincidiu com piores psicotraumas.

Entre os fatores relacionados com o crescimento dos casos de insônia estão menores níveis de educação, maior isolamento social durante o trabalho, grande preocupação com a covid-19 e crença de que a cobertura midiática aumenta o negativismo da situação.

A pesquisa reuniu médicos de todas as partes da China e que trabalham diariamente no combate ao novo coronavírus. Através de um questionário no aplicativo WeChat, os pesquisadores conseguiram demonstrar que, durante a epidemia da Sars, em 2002, os níveis de insônia das equipes médicas eram muito semelhantes aos da situação atual.

Médicos versus Enfermeiros

O estudo também indicou que enfermeiros estão mais propensos a lidar com maiores níveis de estresse do que médicos. Segundo o relatório, isso estaria ligado à quebra dos ciclos de sono desses profissionais. Enquanto os médicos costumam trabalhar durante a tarde, a equipe de enfermeiros assume os turnos noturnos, por isso teria maior interrupção do sono.

Além disso, os enfermeiros estão em contato mais próximo com os pacientes. Essa conexão com os infectados pelo vírus transporta uma enorme carga emocional e aumenta o reflexo de responsabilidade dos profissionais, gerando maior estresse no período de trabalho.

Fonte: Medical News Today, Frontier Sin, El País, BBC e Summit Saúde

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