A palavra “isolamento” não é apenas um termo técnico usado em tempos de novo coronavírus no Ministério da Saúde. Nos últimos dias, a palavra tem sido utilizada para descrever a situação do recém-chegado ministro Nelson Teich.

Escolhido há menos de um mês para substituir Luiz Henrique Mandetta, após um ruidoso processo de fritura, agora é ele quem experimenta essa sensação em três frentes: dentro do ministério, no universo político e junto à opinião pública. Apesar disso, uma troca no comando da pasta, dizem integrantes do governo, ainda não é cogitada.

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Dentro do ministério, o isolamento de Teich começou logo após sua chegada. Desde que assumiu, exonerou mais de uma dezenas de indivíduos da antiga equipe, inclusive funcionários de carreira, e nomeou pelo menos sete militares, entre eles o seu “número dois”, o general Eduardo Pazzuelo.

Ao contrário do antecessor, que em sua saída mostrou ter certo apoio do corpo técnico da pasta, Teich ainda desperta desconfiança. Fontes ouvidas pelo GLOBO dizem que a chegada dos militares alterou o fluxo do processo decisório, tirando autonomia que as secretarias do órgão tinham. Ex-funcionários dizem ter havido uma debandada de técnicos e que os novos indicados não têm experiência na área.

O atrito com representantes estaduais e municipais de Saúde ficou ainda mais evidente no fim de semana. A visão que circula entre os secretários estaduais é que Teich é uma “decepção geral”.

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Segundo relatos feitos ao GLOBO, o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e o Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (Conasems) disseram a Teich que não aprovaram a diretriz sobre relaxamento do distanciamento social lançada na segunda-feira.

A avaliação é a de que, no momento em que a curva da Covid-19 está ascendente, não dá para discutir o relaxamento das regras de restrição de circulação — mesmo que a situação não seja a mesma em todo o território nacional. A mensagem, defendem, tem de ser única até que a situação esteja mais controlável.

— Não é uma divergência técnica, é de oportunidade. Ajuda a sociedade brasileira lançarmos essa matriz neste momento? Passa uma mensagem absolutamente contraditória — disse o presidente do Conass, Alberto Beltrame.

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Nos últimos dias, Teich passou a ser alvo também de ataques nas redes sociais. Ele, que desde que assumiu dizendo que estava “100% alinhado” com Bolsonaro já não tinha a simpatia de seus opositores, passou a ser criticado por apoiadores de presidente.

O estopim para os ataques foram suas declarações sobre a não comprovação, até agora, da eficácia da cloroquina no tratamento da Covid-19 e a afirmação de que a matriz preparada por ele previa a determinação do bloqueio total, conhecido como “lockdown”.

A hashtag #teichliberacloroquina foi um dos assuntos mais comentados no Twitter anteontem. Aliados do ministro atribuíram a movimentação a redes de apoiadores do presidente. No Congresso, mesmo aliados do presidente que apoiaram o nome do oncologista dizem que, até agora, o substituto de Mandetta não conseguiu mostrar a que veio.

Apesar do quadro, uma queda de Teich ainda está fora do horizonte, segundo integrantes do governo. Eles dizem que Bolsonaro confia no ministro e afirmam que o presidente não esperava que, em um mês, ele operasse “milagres”.

A avaliação continua sendo a de que a saída de Mandetta era necessária para distensionar a crise entre o Palácio do Planalto e o ministério e que, até agora, a empreitada tem sido desempenhada com sucesso. O estilo low profile de Teich, dizem, contribuiu para baixar a temperatura.

A surpresa demonstrada pelo ministro ao saber que um decreto do presidente incluiu academias e salões de beleza entre serviços essenciais foi avaliada pelo governo apenas como uma falha de comunicação.

Bolsonaro chegou a dizer ontem que não precisava falar com o ministro sobre o tema. Mais tarde, ao chegar ao Palácio da Alvorada, o presidente afirmou que faltou apenas ter avisado Teich e que o ministro da Secretaria-Geral, Jorge Oliveira, admitiu esta falha.

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