Seja quem for o escolhido, desafios não vão faltar para o novo ministro da Saúde. O GLOBO ouviu cinco especialistas, e cada um elencou cinco prioridades do próximo titular da pasta. Entre elas, estão a necessidade de testagem em massa, a definição de como será feito o isolamento social e a forma como lidar com a cloroquina, uma droga cujas pesquisas tem apontado como ineficaz ao combate da Covid-19, mas que o presidente Jair Bolsonaro aposta como a solução para a pandemia.

—  Qualquer ministro que assuma agora vai ter como maior desafio conseguir se manter no cargo fazendo um bom trabalho, porque ele terá que bater de frente diretamente com o presidente da República — afirma a microbiologista e colunista do GLOBO Natalia Pasternak. 

Os últimos dois ministros — Nelson Teich, que ficou 29 dias no cargo, e Luiz Henrique Mandetta — caíram por contrariar o presidente. A expectativa é que o secretário-executivo da pasta, o general Eduardo Pazuello, fique como interino à frente do ministério por uma semana. 

Outros pontos a serem trabalhados pelo novo titular, que ainda não foi definido, são, na avaliação dos especialistas ouvidos pela reportagem, apoiar a criação dos leitos, definir o uso dos hospitais privados, instituir uma gestão compartilhada entre União, estados e municípios e formar um planejamento estratégico. 

Natalia Pasternak, microbiologista, presidente do Instituto Questão de Ciência, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e autora do livro “Ciência no cotidiano”:

“Primeiro, é preciso um planejamento estratégico, que leve em conta as evidências científicas de que o isolamento social é a única maneira de conter a pandemia, de modo que haja tempo suficiente para tratar dos pacientes que vão precisar ser hospitalizados. Depois, é preciso encontrar a melhor maneira de testar uma grande parte da população, ou pelo menos uma amostra representativa, acompanhando a pandemia para poder avaliar em qual momento e de que forma flexibilizar a quarentena. O terceiro ponto é fomentar o investimento em pesquisas científicas para o progresso de vacinas e medicamentos que, mesmo sabendo-se que não vão ficar prontos a tempo para este surto, garantam que o país tenha uma política pública sólida para que a gente não seja pego de “calças curtas” da próxima vez.  Em quarto lugar, qualquer ministro que assuma agora vai ter como maior desafio conseguir se manter no cargo fazendo um bom trabalho, porque ele terá que bater de frente diretamente com o presidente da República. E por fim como lidar com tratamento: a cloroquina não pode ser um debate de Estado. Ela é só uma droga candidata [para o tratamento da doença]. Não podemos parar o país por causa de um medicamento candidato que foi reprovado em diversos estudos científicos. A gente tem mais medicamentos candidatos sendo testados.”

Alberto Beltrame, presidente do Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass):

“Em primeiro lugar, o novo ministro precisa viabilizar a volta do gabinete de crise com gestão compartilhada entre União, estados e municípios. É essencial o entendimento de que a gestão deve ser tripartite e que não é possível fazer uma governança de um problema tão grande e de um sistema como o SUS de forma monocrática. Ou seja, o ministério definindo sozinho as políticas e ações. O Conass, o Conasems [Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde] e o ministério devem agir junto, como prevê a legislação; eles são os gestores dos SUS e da pandemia.  Com os estados e municípios cuidando de 98% da rede de assistência e a união, de cerca de 1,8%, não é razoável que o ministério atue sozinho. Ele precisa da construção de um consenso.  Também é preciso ter clareza na mensagem do ministério. Por exemplo, quando às medidas adotadas de isolamento social. Nós entendemos, e a ciência nos mostra isso, que, além das indivíduos adoecendo, estamos vendo o adoecimento do nosso sistema de saúde. Quanto menos casos acumulados, mais facilidade a gente vai ter de atender as indivíduos no sistema e, consequentemente, vai ter uma redução de óbitos e de casos graves. O terceiro ponto é o apoio no fornecimento de equipamentos e coparticipação no custeio de leitos, um apoio efetivo do Ministério da Saúde – conforme vem prometendo desde o início da crise e criando expectativas frustradas – no fornecimento de equipamentos e na montagem de leitos de UTI nos estados e municípios. O quarto ponto é que é preciso a ampliação da capacidade de testagem da população, principalmente pelos [testes] moleculares, o PCR. Hoje, temos uma capacidade muito limitada de realizar exames, por falta de insumos. Por fim, é preciso um reforço na estrutura de recurso humanos da Saúde, seja através da Força Nacional de Saúde, seja no recrutamento de médicos e outros profissionais, desde enfermeiros, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas, nutricionistas. Isso tem sido uma enorme dificuldade para estados e municípios, especialmente em regiões que têm populações mais rarefeitas, mais distribuída pelo território.”

Marcos Cyrillo, infectologista e diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI):

“O primeiro destaque é a necessidade da testagem em massa. Precisamos saber a quantidade de infectados. Não temos noção de quantas indivíduos contaminadas temos. Precisamos ter mais testes rápidos para a população, principalmente para quem está na linha de frente, para os profissionais de saúde.  Depois, precisamos conhecer melhor a situação da nação brasileira. Temos que saber qual é a taxa de mortalidade e quantos doentes estão sendo internados. Dos que estão sendo internados, quantos estão indo para as UTIs. Dos que estão indo para a UTI, quantos precisam de respiradores. E, dos que estão no respirador, quanto estão morrendo. Precisamos de melhores dados, porque ainda estamos perdidos sobre como está a nossa situação em relação ao resto do mundo. Temas quantidades, mas será que eles são precisos em relação à realidade? Precisamos saber qual a nossa realidade de enfrentamento dos hospitais públicos e privados. Um terceiro ponto é sobre tratamento e vacina: nós estamos discutindo quais são os melhores tratamentos todos os dias. Se devemos usar cloroquina, corticoides, anticoagulantes. Temos muitas dúvidas em relação aos melhores tratamentos e sobre quando começarmos com eles. Sobre as vacinas, também precisamos saber como a nação brasileira está em relação às pesquisas. Também é importante que o novo ministro defina como enfrentaremos pandemia: será um lockdown? Vamos isolar quem tem mais de 65 anos? Um isolamento parcial ou total? Estes são os pontos que precisamos saber. Para um plano perfeito, todo mundo precisa falar a mesma língua e tem que jogar no mesmo time. E por fim há o desafio da definição do uso de leitos privados: o futuro ministro terá que discutir isso. Como nós vamos usar os leitos privados? Quem pagará? Qual será o valor disso? Qual é a fila? Qual é a prioridade? Quem tem direito ao hospital privado? Quem tem um plano de saúde vai ter prioridade sobre o paciente do SUS? Qual vai ser o fluxo? Como vai ser atendido?”

Ligia Bahia, especialista em saúde pública e professora da UFRJ:

“A primeira ação é manifestar pesar pelas mortes e agradecer aos profissionais de saúde, inclusive providenciando um incremento de remuneração para os que estão na linha de frente. É preciso demonstrar empatia. A segunda ação é realizar reuniões permanentes com entidades científicas e pesquisadores, organizar um conselho com a participação da comunidade científica e ter disposição para se manter atualizado em relação à disseminação da pandemia. A terceira medida seria convocar reuniões permanentes com governadores e secretários de saúde e visitar unidades de saúde em locais críticos. O novo ministro deve ter capacidade de liderança e coordenação para radicalizar o distanciamento social e trazer para si a decisão sobre  processos de reabertura de atividades como comércio e aulas. Quarto: é preciso exigir o repasse dos recursos financeiros previstos para o Ministério da Saúde ainda retidos pela área econômica, tornando a Saúde prioridade orçamentária. E, por fim, organizar um gabinete de crise integrado por ministérios estratégicos no combate à Covid-19 para monitorar a efetivação do pagamento de auxílios emergenciais e acesso a serviços essenciais e a internet às populações que necessitam manter isolamento social.” 

Alberto Chebabo, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI):

“Precisamos aumentar a testagem da população. O país continua muito ruim e por causa disso não conseguimos calcular, nem modelar as ações. Os primeiros fechamentos de uma pesquisa de testagem feita pelo Ministério da Saúde em Manaus é um exemplo da necessidade de realizar testes. O estudo aponta 201,6 mil indivíduos possivelmente infectadas, o que corresponde a 11% da população.  É preciso que haja uma coordenação nacional sobre isolamento social, com base em análises científicas.  Os estados e municípios estão fazendo cada um do seu jeito, o que muito caótico sem uma coordenação. Há locais que poderiam já estar retomando a produção, mas também para isso seria necessária a realização de testagem das indivíduos.  A organização das diretrizes de tratamentos, baseados em evidências científicas, é outra ação. Continuamos insistindo em discutir apenas a cloroquina. Mostra que estamos perdidos em relação ao resto do mundo. É necessária uma gestão técnica na questão do tratamento, que dialogue com as sociedades científicas, com as de infectologia, de epidemiologia e outras. O comando do Ministério da Saúde necessita trazer para o país protocolos científicos e medicamentos que estão sendo usados em outros países.  Fomentar pesquisas é outra ação. O Ministério da Saúde deve, em parceria com o Ministério da Ciência e Tecnologia, incentivar a realização de pesquisas de tratamento e de vacina. É necessário avaliar as que receberão recursos e quais terão colaboração internacional. Estamos parados há dois meses, enquanto outros países avançam.”

Guilherme Werneck, médico, professor do Departamento de Epidemiologia da UERJ e da UFRJ:

“Fortalecer a estrutura técnica do Ministério da Saúde e aderir de forma decidida aos fundamentos científicos como base para subsidiar as ações de vigilância e enfrentamento da Covid-19 para as próximas etapas da pandemia devem ser umas das primeiras ações.  É importante reforçar a inexistência de soluções milagrosas e refutar o uso de opções preventivas e terapêuticas sem respaldo científico e que possam oferecer riscos à população.

Elaborar plano de ação que inclua: estratégia de monitoramento, testagem e acompanhamento de casos de síndrome gripal; busca de ativa de casos e contatos para fins de isolamento; realização de estudos epidemiológicos para monitoramento da difusão geográfica da epidemia e  melhoria do registro e qualidade das bases de dados para acompanhamento da epidemia, garantindo o amplo acesso.

É preciso que a atuação seja em parceria com as diferentes instâncias federativas para o enfrentamento da epidemia. Estruturar um gabinete de crise com a participação de sociedades científicas, além dos conselhos de gestores estaduais e municipais.   

Ampliar as ações de proteção de populações vulneráveis e prevenção de agravos decorrentes da crise sanitária. Necessitam de melhor atenção os indígenas, populações tradicionais (quilombolas, por exemplo), idosos, profissionais de saúde. 

Uma medida importante é fortalecer a bases cientifica, tecnológica e de inovação para o enfrentamento dessa e próximas epidemias.  Participar nas iniciativas mundiais e regionais de progresso de insumos estratégicos para o enfrentamento da pandemia, como por exemplo, vacinas e medicamentos.

Por fim, atuar primordialmente para “salvar vidas”. O novo ministro deve agir de forma unificada e intensa na divulgação das ações de prevenção e controle com ênfase no distanciamento social ampliado.”

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