A saída de Nelson Teich do Ministério da Saúde, nesta sexta-feira, repercutiu de forma muito negativa entre as comunidades médica e científica. Para a maioria, a exoneração comprova o despreparo do governo brasileiro para lidar com uma pandemia de tamanha gravidade.

Em nota, o Conselho Nacional de Saúde (CNS) repudiou o caos na gestão do Ministério da Saúde:

“Não bastasse a demissão do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta há menos de um mês, em meio à pandemia do novo coronavírus, agora, assistimos perplexos à saída de Nelson Teich, que o substituiu. O motivo é o mesmo: divergência do ministro com o presidente da república quanto à importância vital das medidas de distanciamento social colocadas em ação em todo a nação brasileira, a reabertura sem fundamentos de serviços não essenciais, além da divergência quanto ao uso da cloroquina, que deve ser utilizada somente sob prescrição médica.”

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Segundo Ildeu de Castro Moreira, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o momento é de gravísisma crise na saúde e a mudança de ministros gera inseguranças e incertezas na política nacional.

– Em meio a uma pandemia que está afetando e matando milhares de brasileiros, as orientações e direcionamentos deveriam ter no Ministério da Saúde e no governo federal a liderança. Infelizmente, não é o que temos visto. Além de conflitos de ordem política miúda, tais medidas e programas emergenciais deveriam estar escorados nas orientações dos profissionais da saúde, da ciência, dos organismos internacionais e nacionais qualificados. Não adianta trocar ministro, secretários ou outros gestores, se as políticas adotadas visarem a interesses menores e mal informados e não à preocupação genuína com a vida e a sobrevivência dos brasileiros – alertou.

Neurocientista e colunista do GLOBO, Roberto Lent classificou o ocorrido como “um crime contra a vida”. Para ele, a demissão de dois ministros da Saúde em meio a uma pandemia revela uma terrível incapacidade de conduzir o país com tranquilidade, ponderação e responsabilidade.

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– A saída dessa crise sanitária sem precedentes depende de políticas públicas baseadas na ciência. Isso tem se revelado verdadeiro em todo o mundo. A pretensão voluntarista de impor soluções improvisadas pode custar milhares de vidas a mais brasileiros – disse.

O presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj), Sylvio Provenzano, lamentou a saída precoce de Nelson Teich, “afinal, o tempo foi curto demais para ele ser julgado e avaliado em suas atribuições como ministro”. Para ele,  a razão maior para o pedido de demissão foi ter sido contrário ao uso da hidroxicloroquina.

– Em meio a uma pandemia, qualquer atraso, nas ações de combate, são muito prejudiciais – ressaltou.

Para Alberto Chebabo, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), “a saída de Teich é uma catástrofe. Termos que mudar dois ministros em meio à pandemia, mostra uma total falta de comando para enfrentamento dessa epidemia no país”.

De acordo com a Dra. Gulnar Azevedo, médica sanitarista e presidente da Associaçãa nação brasileiraeira de Saúde Coletiva (Abrasco), “é uma vergonha termos um presidente que diz o que diz, que vai na contramão de todos os outros países e insiste no uso de um remédio que ainda não tem eficácia comprovada. Infelizmente a nação brasileira vai se tornar, muito em breve, o epicentro da pandemia se continuarmos seguindo as recomendações do presidente”.

– Para a nação brasileira, isso é péssimo. Estamos em plena pandemia, com a quantidade de casos e de vítimas fatais subindo. Sobre o ex-Representante do governo federal Nelson Teich, acredito que ele agiu de acordo com a consciência. É um profissional respeitado em sua área e não quis “sujar” sua história, aceitando um protocolo de inclusão da cloroquina. O ex-ministro agiu de acordo com as evidências científicas, não com “achismos” – lembrou o infectologista Dr. Leonardo Weissmann.

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