País tenta fechar acordos para não ficar sem vacinas contra o Sars-CoV-2

Ana Lucia Azevedo

19/05/2020 – 04:30

Cientista conduz pesquisa contra o novo coronavírus em San Diego, na Califórnia Foto: Bing Guan / Reuters Cientista conduz pesquisa contra o novo coronavírus em San Diego, na Califórnia Foto: Bing Guan / Reuters

RIO – Se os Estados Unidos decolaram rumo a um imunizante contra o coronavírus, a nação brasileira está atrasado e precisa de dinheiro em seus laboratórios de pesquisa, além de parcerias internacionais para garantir que a população brasileira será vacinada quando o imunizante estiver pronto.

Caso contrário, a proteção contra a Covid-19 seguirá o mesmo caminho de respiradores e testes de diagnóstico, ambos em falta.

— O fato é que o mundo está investindo muito em vacinas e estamos atrasados. Teremos que colar nesses grandes grupos internacionais se quisermos ter acesso a essas vacinas logo após sua aprovação. São projetos de bilhões de dólares e não temos nem uma fração desse dinheiro. Por isso, precisamos de colaboração e investimento que nos tornem parceiros atraentes — destaca Akira Homma, de Bio-Manguinhos/Fiocruz.

Em busca da vacina
Como é o progresso
Criação de um soro químico
A abordagem trincremento insere uma versão
modificada do vírus, ou partes dele, em uma
solução injetada no corpo, mas o método é
lento. As novas abordagens de engenharia
genética inserem uma amostra dos genes do
vírus na solução. Este método é mais rápido,
mas tem menos comprovação.
UMA PARTÍCULA DO
VÍRUS É ISOLADA
Adaptado para
Mapeando a sequência
uma vacina
genética do vírus
O vírus é
O vírus é
Partes dos
enfraquecido
vírus são
(atenuado)
(inativado)
Na engenharia genética, são
manipulados determinados
genes do vírus, que serão usados
amostras no
amostras no
amostras num
plasmídeo, que
RNA, na parte
adenovírus
são moléculas
do vírus formada
por lipídeos
Teste em animais e indivíduos
Os testes começam em laboratório e animais e
depois prosseguem para os seres humanos,
chegando a dezenas de milhares. Se a vacina
causa efeitos colaterais graves ou não produz
anticorpos ou não protege um grande número
de indivíduos, ela é abandonada.
Essas partículas
são colocadas numa
solução, que será
PRÉ-CLÍNICOS
É muito tóxico?
Isso leva as células
do sistema imunoló
gico a produzir anti
corpos que irão
identificar e se
anexar ao vírus?
ENSAIOS CLÍNICO
Teste em humanos
A vacina é segura? Efeitos
colaterais ruins são evitados?
O sistema imunológico produz
anticorpos?
A vacina é segura?
A resposta imunológica
é forte? A dosagem está
Previne com segurança
infecções e doenças em um
grande número de indivíduos?
Produção
Uma vacina bem-sucedida deve ser
aprovada pelos órgãos reguladores,
depois fabricada em volume e testada
quanto à qualidade do produto.
Vacina de RNA
O RNA é sempre emcapsula
do em uma camada de lipídios
para entrar na célula
Uma vacina baseada em RNA é
segura e fácíl de desenvolver:
envolver apenas o material genéti
co, não o vírus. Porém, nunca
foram provadas. Não existe nenhu
ma vacina disponível hoje que usa
essa tecnologia
Pedaços de
proteínas do
coronavírus
Proteínas virais
Fonte: Morgan Stanley e Nature

A vacina da Moderna faz parte da operação lançada neste mês pelo presidente americano Donald Trump para acelerar o progresso de imunizantes e ter uma cura pronta até o fim deste ano. Testes que levariam 10 anos são feitos em meses, com muito custo e incerteza. Só no projeto da Moderna, os EUA colocaram US$ 580 milhões.

E Trump já deixou claro que vai garantir que os EUA tenham pelo menos 300 milhões de doses. É cedo para saber se a vacina da Moderna irá adiante ou se a melhor opção será uma das outras em progresso. Ou, ainda, a combinação de algumas delas.

Obstáculos como falta de laboratórios específicos

Porém, mais incerto ainda é o acesso dos países não desenvolvedores a essas vacinas. O Brasil desenvolve alguns imunizantes, a exemplo de projetos de Bio-Manguinhos/Fiocruz e da USP, mas está muito atrás de grandes laboratórios e de países como a China.

A Fiocruz, segundo Homma, negocia parcerias com três grandes laboratórios à frente de projetos avançados, cujos nomes ainda são mantidos em sigilo. Uma parceria com a Moderna, diz o cientista, foi cogitada, mas não avançou. Para o próprio progresso de imunizantes, a nação brasileira enfrenta, por exemplo, obstáculos como a falta de um laboratório de segurança para testes de animais com vacinas.

— Temos boa condições de produzir vacinas em grande quantidade. Mas precisamos ter a tecnologia contra o coronavírus — observa Homma.

A China, um dos países com vacinas contra a Covid-19 em estágio mais avançado de progresso, busca uma parceria com Bio-Manguinhos. País de origem do coronavírus, ela está em busca agora de indivíduos infectadas, uma vez que a quantidade de chineses doentes decresceu ao ponto de não ser mais suficiente para testes em grande escala.

— Temos infectados de sobra e estrutura para testes clínicos. Precisamos dessas parcerias para ter acesso à vacina.

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