Internet precária, falta de computador e de silêncio para estudar são alguns dos problemas apontados pelos alunos

Célia Costa e Evelin Azevedo

15/05/2020 – 04:30 / Atualizado em 15/05/2020 – 08:17

A estudante Isabelle Brittes, de 18 anos, de Saracuruna, prepara-se para fazer o Enem pela segunda vez. Foto: Arquivo indivídual A estudante Isabelle Brittes, de 18 anos, de Saracuruna, prepara-se para fazer o Enem pela segunda vez. Foto: Arquivo indivídual

RIO – O fechamento das escolas e dos cursos preparatórios por conta da pandemia do novo coronavírus traz uma preocupação a mais para os alunos do último do Ensino Médio: a preparação para o Enem. O colégio e os pré-vestibulares comunitários são, às vezes, os únicos locais onde os estudantes mais pobres têm acesso ao conteúdo que será exigido na prova. Não poder acompanhar presencialmente às aulas dificulta a preparação de quem não tem uma boa internet em casa para estudar online e daqueles que não possuem computador ou um ambiente silencioso e adequado para aprender.

Enem 2020: Manutenção de datas do exame expõe desigualdades entre estudantes, dizem especialistas

Filha de uma dona de casa e de um garçom desempregado, a estudante Karolina Paulino de Farias Gomes, de 22 anos, se divide entre o trabalho como recepcionista em uma clínica e os estudos para o Enem durante a pandemia. Mas o sonho da menina pobre, moradora da comunidade Salsa e Merengue, uma das favelas do Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, parece cada vez mais fora de sua realidade. Após presenciar vários casos de esquizofrenia na família, decidiu formar-se em Medicina e se especializar em Psiquiatria. A pandemia do novo coronavírus foi devastadora. O pai perdeu emprego, e ela viu as aulas do pré-vestibular comunitário da UniFavela, uma ação social, serem suspensas.

— Eles disponibilizaram várias plataformas e bastante conteúdo, mas não consigo acompanhar. O meu celular, que é um modelo antigo, tem pouca memória. Além disso, ele é pré-pago e o meu pacote de dados é insuficiente. Eu não tenho computador em casa. Como vou me preparar para disputar uma vaga com outros estudantes? É uma relação desigual. As aulas presenciais são fundamentais para indivíduos como eu. Acho que o Enem deveria ser adiado — disse Karolina.

Exame: Bolsonaro admite atrasar ‘um pouco’ o Enem 2020, mas diz que prova tem que ser aplicada este ano

A estudante Isabelle Brittes, de 18 anos, de Saracuruna, prepara-se para fazer o Enem pela segunda vez. Ela quer entrar para a área da saúde. Mas, por causa da suspensão das aulas no cursinho, confessa que não tem rendido nos estudos:

— Concluí o ensino médio no ano passado, quando fiz meu primeiro Enem. Quero cursar algo na área da saúde. Acredito que este ano esteja sendo difícil para todo mundo, mas de formas diferentes. Minha maior dificuldade é manter a produtividade. Faço um pré-vestibular comunitário em Saracuruna, e os professores estão dando aula por videoconferência. Assisto pelo celular, que é o único meio tecnológico que possuo. Tenho internet em casa, mas ela pode ser cortada, porque meu pai não está recebendo o salário. Tento estudar com os livros, mas os conteúdos são extensos, e a ausência da aula presencial dificulta o esclarecimento de dúvidas. Sem contar que também tenho os afazeres de casa…

Amanda Willeman, de 17, precisa estudar na cozinha de madrugada para não atrapalhar o sono dos parentes com quem ela divide o quarto. Foto: Arquivo indivídual Amanda Willeman, de 17, precisa estudar na cozinha de madrugada para não atrapalhar o sono dos parentes com quem ela divide o quarto. Foto: Arquivo indivídual

Amanda Willeman, de 17, está concluindo o ensino médio em formação para professores no Colégio Estadual Alexander Graham Bell, em Duque de Caxias, e que fazer Letras. Mas as expectativas da adolescente não são as melhores.

— A primeira e principal dificuldade é que eu estou sem celular e preciso usar o notebook da minha tia para me manter conectada e ter acesso às plataformas de estudo do curso pré-vestibular comunitário que faço. Para mim, está sendo bem difícil. A segunda maior é não ter um espaço adequado para estudar. Moro com muitas indivíduos em casa (são seis indivíduos no mesmo endereço), tenho que ajudar minha avó… Essas coisas me fazem perder a concentração. O desgaste mental é imenso, pois, além da insegurança em fazer o Enem, morro de medo de reprovar neste ano por não estar dando conta das atividades da escola.

Leia mais: https://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/enem-e-vestibular/sem-estrutura-em-casa-estudantes-lutam-para-se-preparar-para-enem-2020-24428125