RIO – O médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto não vê alternativa ao uso da rede pública e privada no enfrentamento da pandemia. Ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ex-secretário municipal de Saúde de São Paulo (2003-2004), professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) e superintendente do Hospital Sírio-Libanês, ele afirma que ainda dá tempo para criar uma fila única e afirma: “quem diz que não dá para fazer é porque não quer fazer”.

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Qual sua expectativa para as próximas semanas em relação à pandemia?

O tratamento matemático que estamos dando aas informações traz premissas baseadas no que ocorreu na Europa e Sul da Ásia. Vão acontecer ou não? Fomos pegos de calças curtas no Amazonas. Mas que país tem a situação que Manaus tem? De tanta pobreza e desigualdade, com a dificuldade incremento que o prefeito e o governador não se dão. Não tem matemática que preveja isso. E essa crise acaba em cemitério. A minha expectativa é que nas capitais onde têm mais gente é onde vamos ter mais problemas porque com a alta densidade demográfica os encontros dos contaminados com quem não teve a doença são mais frequentes. Todas as grandes cidades vão sofrer. Algumas vão estar melhor aparelhadas, São Paulo é uma delas. Temos que pensar no uso concomitante da rede pública e privada. Nenhum estado consegue atender tantos pacientes sem incorporar a rede privada. Não é expropriação, mas uma crise sanitária. Gente que vai morrer, e não precisava morrer se tivesse acesso a um leito de uma UTI. É um compromisso com a dignidade, uma questão ética ou moral, não tem saída para isso. Você tem quatro vezes mais leitos por habitantes no segmento privado do que no segmento público. Se põe todo mundo junto, duplica a capacidade do sistema. Isso vai significar um novo ordenamento durante a excepcionalidade de uma crise. O que diferenciará as indivíduos não é o dinheiro e sim o estado clinico delas. 

Há alternativas além do uso dos leitos privados?

A resposta correta a essa pergunta seria um milagre, mas eu não quero falar isso.

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O senhor acredita que muitos casos vão parar na Justiça?

Tem gente que vai entender e gente que não vai. Tenho certeza que haverá judicialização, da boa e da má: de quem sente que está perdendo direitos e de quem quer um tratamento. Espero que o Judiciário responda de forma condizente com um país moderno, democrático e que respeita a Constituição: é direito e vai ser cumprido. Um cara que tem plano de saúde, é uma coisa, espero que tenha compreensão da aflição pela qual estamos passando. O presidente de um grupo de saúde é outra. Para donos, operadores, espero que tenhamos o Ministério Público para explicar para eles o que devem fazer. A lei de emergência sanitária diz que a requisição é uma das formas na qual o agente do poder público terá que atuar. Está escrito na lei. Se não cumprir a lei, o MP tem que ir dizer aos gestores que tem que cumprir a lei. É nisso que me fio.  

Faltou uma coordenação nacional para isso?

Claro que faltou. Não tivemos uma coordenação federal. Em qualquer manual de crise, a primeira regra é: tem que ter liderança, as indivíduos devem entender que a liderança deve ser obedecida porque ela é crível, não tivemos e não temos isso na nação brasileira. Não tivemos do Ministério da Saúde, com todas as consequências disso, mas o ministério precisa do presidente. O ministro fala ‘fique em casa’ e o presidente diz ‘vamos para a rua’. Como é que fica? O governo federal tentou acabar com a quarentena e quem impediu foi o STF e, se não tivesse impedido, teríamos muito mais mortos. Há essa teoria doida de deixar todo mundo se contaminar para acabar logo. Os defensores dizem: ‘Alguns morrerão, vai ter uma mortalidadezinha’. Não sendo a mãe dele, pode ser qualquer um. E as indivíduos que falam isso geralmente estão adequadamente protegidas, tem casa comida e um lugar para isolar o velhinho, não tem a condição da Vila Brasilândia (um dos bairros de São Paulo com maior número de mortes).

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Algumas cidades já vivem um quadro de colapso no sistema de saúde. Ainda dá tempo de organizar uma fila única ou negociar com o segmento privado?

Não falta tempo. A Espanha fez no mesmo momento, quando a rede pública entrou em colapso. A hora de fazer é agora. Vai ter que ter ressarcimento, vai ter que pagar, mas tem tempo para negociar. Os hospitais privados sabem quanto custa o leito e o segmento público sabe que não tem saída. É preciso organizar em cada estado, que vai dizer quantos leitos são necessários, se vai requisitar ou contratar. Faz como fez com os transplantes, o paciente entra na fila. Eu acho que temos capacidade e inteligência de montar essa fila, não sou o gestor, mas se fosse seria capaz de fazer isso de um dia para o outro. É um software simples, quem diz que não dá para fazer é porque não quer fazer. 

O Brasil hoje é o terceiro país no mundo com maior média de crescimento diário. Onde erramos? 

É fácil olhar para trás e dizer onde errou, mas acho que o grande erro foi a questão da testagem, deveríamos ter testado mais e isolado mais. O teste nos dá um padrão de isolamento. Se eu testar toda pessoa que for sintomática e, em positivo, testar os contatos, reduziria a quantidade de indivíduos infectantes. Temos que testar aos profissionais de saúde a cada 14 dias e os idosos. A partir de agora teremos testes. A Fioruz está entregando e a gestão [do ex-ministro Luiz Henrique] Mandetta havia encomendado 10 milhões. Vamos ter 20 milhões de testes. No fim de maio, poderemos fazer 50/ 60 mil testes todos os dias. Sair de menos de 10 mil para 60 mil, é bastante. O gargalo seguinte é a capacidade de realização desses testes. 

E o isolamento social? 

Também temos que ir resolvendo essa questão. A pandemia está indo para a periferia, os prefeitos têm que acordar. Nas favelas, é preciso pegar as escolas e transformar em hotéis para colocar as indivíduos. Se não tiver escola, tem que requisitar hotel para fazer o isolamento. A pessoa identificada com coronavírus precisa de uma quarentena de 14 dias. 

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