Antibiótico oral pode reduzir internação por abuso de drogas

Tratamento contra infecções causadas por abuso de opioides requer longos ciclos de antibiótico e internação hospitalar

Enquanto a pandemia de coronavírus avança no mundo, a epidemia de opioides continua nos Estados Unidos. Diariamente, morrem cerca de 128 no país, vítimas de overdose pelo uso indevido de produtos como heroína, fentanil e analgésicos, de acordo com o Instituto Nacional de Abuso de Drogas (NIH). Estima-se que 3 milhões de pessoas sofram com o transtorno de uso de opioides.

Como as substâncias geralmente são injetadas em condições não higiênicas, a epidemia de opioides trouxe consigo infecções invasivas. Na última década, um número crescente de pessoas deu entrada em emergências com graves infecções bacterianas relacionadas ao uso de drogas intravenosas.

Essas inflamações podem ser letais e precisam ser tratadas por semanas com internação hospitalar, o que representa alto custo para o sistema de saúde. No período de 2015 a 2018, os EUA gastaram cerca de US$ 205 bilhões com cuidados relacionados à epidemia de opioides, conforme dados da Sociedade de Atuários dos Estados Unidos (SOA). Esses números podem ser reduzidos caso as internações hospitalares sejam menores.

Antibióticos orais mostraram mesma eficácia que tratamento intravenoso complementar em pacientes com histórico de abuso de opioides. (Fonte: Shutterstock)

Um estudo da Faculdade de Medicina de Washington mostrou que as infecções causadas pelo uso de opioides podem ser tratadas, em parte, com o uso de antibióticos orais. Dessa forma, os pacientes recebem alta hospitalar mais cedo e terminam o tratamento em casa sem prejudicar a recuperação.

Os resultados da pesquisa mudaram o procedimento dos médicos do Hospital Barnes-Jewish, mantido pela Universidade de Washington. As pessoas permaneciam no local por duas a seis semanas recebendo o tratamento com antibióticos intravenosos; agora, têm a opção de finalizar o programa em casa com uma receita de antibióticos orais.

“A maioria não quer ficar no hospital por semanas a fio para receber antibióticos intravenosos quando pode ser tratada em casa”, disse autora da pesquisa, Laura Marks, pesquisadora clínica de doenças infecciosas, em release da universidade. “Mas, até recentemente, os médicos infectologistas tinham evidências limitadas sobre opções de tratamento eficazes para pacientes que não conseguiam concluir longos ciclos de antibióticos intravenosos”, completou.

Análise de internações

Índice de readmissão de internação hospitalar foi semelhante entre pacientes com todo o tratamento intravenoso e com parte em internação e parte com antibióticos orais em casa. (Fonte: Shutterstock)

“Havia a ideia de que as pessoas que injetam drogas não se preocupam com a saúde e não aderem a um regime de antibióticos orais na alta”, afirmou o orientador do estudo, Michael Durkin, professor assistente de Medicina e codiretor de administração antimicrobiana do Hospital Barnes-Jewish. “Portanto, deixar os pacientes saírem do hospital no meio do curso de antibióticos por via intravenosa era como abandonar todos os tratamentos”, completou.

A equipe médica analisou prontuários de 293 pacientes que haviam injetado drogas ilegais e foram tratados por infecções invasivas no hospital universitário em algum momento entre janeiro de 2016 e julho de 2019. Os indivíduos foram divididos em três grupos: que haviam completado cursos completos de antibióticos intravenosos no hospital; que iniciaram antibióticos intravenosos no hospital e receberam alta com prescrições de antibióticos orais; e que iniciaram antibióticos intravenosos no hospital e saíram sem receita médica.

Readmissão hospitalar

Os pesquisadores analisaram quantos pacientes foram readmitidos no hospital por qualquer motivo dentro de 90 dias após a alta. Aqueles que deixaram o tratamento sem prescrições de antibióticos tiveram duas vezes mais chances de serem readmitidos em três meses quando comparados àqueles que saíram precocemente com prescrições ou àqueles que concluíram o ciclo no hospital.

Os autores calcularam que, para cada três pessoas tratadas com antibióticos orais, uma a menos precisava ser readmitida no hospital. Além disso, não houve diferença significativa entre aqueles que permaneceram no hospital por ciclos completos de antibióticos intravenosos e aqueles que tiveram tratamentos parciais de antibióticos intravenosos seguidos por antibióticos orais. Os resultados do estudo foram publicados na revista médica Clinical Infectious Diseases, mantida pela Universidade de Oxford.

Embora os antibióticos intravenosos ainda sejam considerados o padrão de tratamento para infecções invasivas, as descobertas sugerem que pessoas que não desejam ficar no hospital por semanas devem ter a opção de finalizar os cuidados em casa.

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Fontes: Instituto Nacional de Abuso de Drogas dos EUA (NIH), Faculdade de Medicina de Washington e Sociedade de Atuários dos Estados Unidos (Soa)

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