Outubro Rosa: servidora da Seduc relata luta atual contra o câncer de mama e diz como deixou este momento mais leve

Lutando contra um câncer de mama desde junho, a advogada Camila Lorenzi, de 31 anos, que trabalha no setor jurídico da Secretaria Estadual da Educação (Seduc), viu sua vida se transformar. A moradia em Porto Alegre foi substituída pela casa dos pais, em Salto do Jacuí. A rotina de trabalho presencial foi transformada em atividades remotas. O dia a dia passou a incluir a realização de quimioterapia e os cabelos da profissional caíram. Mas quem disse que ela desanimou? Nem pensar: para Camila, ainda que não tenha escolhido enfrentar o tumor, a decisão dela é passar por este desafio da melhor forma possível. Confira abaixo a entrevista realizada com a advogada, para marcar o primeiro dia do Outubro Rosa 2020.

Foto de Camila sem cabelo, com a cabeça apoiada em uma das mãos, sorrindo
Camila passa por quimioterapia e, depois, fará cirurgia e radioterapia – Foto: Arquivo pessoal

Como você descobriu o nódulo?
Camila – Em outubro do ano passado, fui a uma consulta de rotina em uma ginecologista de Porto Alegre e ela sentiu um nódulo no exame de toque e, por isso, pediu uma ecografia mamária. Depois, fui a uma outra ginecologista na minha cidade (Salto do Jacuí) e ela percebeu que eu tinha nódulo benigno, de 0,5 centímetro, e pediu para eu ir acompanhando e fazer um novo exame em seis meses. O problema é que seis meses depois era abril e estávamos no meio da pandemia, então eu esqueci completamente de fazer. Em 29 de abril, eu acordei com muita dor no seio e eu senti um nódulo bem saliente, perto da auréola, e a médica pediu uma ecografia novamente. Quando eu fiz o exame, foi descoberto um outro nódulo, que não era aquele de outubro, que era um tumor maligno de 2,6 centímetros.

A partir deste exame, como você chegou ao diagnóstico final?
Camila – Comecei a investigar, minha ginecologista me encaminhou para uma mastologista, que pediu uma biópsia e viu que eu tinha um carcinoma de grau 3. Aí foi aquele susto, não sabia o que ia acontecer, tinha medo de contar para os meus pais. Mas tive um apoio muito grande, inclusive do pessoal da Seduc, porque era quem estava comigo no dia a dia. Aí fui na minha mastologista com o resultado, já marcamos um oncologista para a mesma semana. Para iniciar o tratamento, eu tinha que esperar outro exame, para saber que tipo de tumor eu tinha – descobri que cada pessoa tem um tratamento específico, que varia muito, de acordo com o perfil do paciente. Depois de tudo isso, veio em junho o resultado de que era um tumor triplo negativo, que é o mais agressivo que tem. Essa foi a parte mais difícil, porque eu fui para a internet e vi que ele tinha um índice de mortalidade muito grande, mas, conversando com a minha médica, ela super me acalmou, disse para eu não ir mais para o Google, porque só me faria mal.

Como você tem se sentido ao longo do tratamento?
Camila – Iniciei o tratamento e o susto inicial passou, depois de eu assimilar. Fiquei em estado de choque, mas tive essa postura do enfrentamento, de focar em qual seria o próximo passo. Como eu tive duas amigas que tiveram câncer de mama, uma no ano passado e outra há 10 anos, tive bons exemplos, então eu quis me esforçar para ficar bem. Aí começaram as quimioterapias, que são cruéis, foram quatro vermelhas, que são mais fortes, e 12 brancas, que são mais leves. Nas vermelhas eu fiquei muito mal, tive muita náusea, ficava muito fraca, mas era mais uma adaptação, e não um susto. Agora terminei essa etapa e estou fazendo as brancas, não passo mais mal, só me sinto muito cansada agora, porque são medicamentos muito pesados, mas o susto inicial passou. Agora, depois de quatro meses de tratamento, está tudo mais tranquilo, já assimilei. Serão cinco meses de quimioterapia no total, depois farei a cirurgia e, aí, começo a radioterapia, com 15 a 25 sessões. Vou até janeiro no tratamento, mas a pior fase, segundo minha ginecologista, é agora.

Qual é o sentimento ao, de repente, lidar com essa situação?
Camila – É um susto, a vida vira de cabeça para baixo. É um misto de sensações, mas eu me esforcei muito para manter a cabeça boa, me manter positiva, me permitir não estar bem nos dias em que eu não estava bem, que não são poucos. Eu já chorei, a nossa imagem sobre nós muda, perdi meu cabelo, sobrancelhas, mas, quando não estou bem, não fico me olhando, me martirizando na frente do espelho. Penso que no dia seguinte vou ficar melhor, procuro me movimentar. Faço terapia, faço pilates, yoga, tenho meus pais e amigos que dão um suporte essencial. Foi a minha maneira de enfrentar, não escolhi viver isso, mas, se vou viver, quero que seja da melhor forma possível. E dá certo: quando a gente coloca dessa forma, os outros veem que eu estou bem e ficam bem também, meus pais ficam bem.

Você chegou a procurar grupos de apoio?
Camila – Eu faço terapia desde o ano passado, mas quando eu comecei a postar no Instagram coisas sobre o meu câncer, muitas mulheres que estão passando por isso me procuraram, o que foi muito bacana. Aí resolvi começar a postar mais, e essa troca com pessoas que estão vivendo a mesma coisa é muito importante, tu te entendes melhor. Muitas vinham me procurar para saber da minha história, saber o que eu tomava, como eu fazia, troca até de dicas, e isso me ajudou muito, foi muito bom para mim. Aí tu vais te identificando, vendo que também não é todo aquele monstro que se cria. Felizmente, os médicos que eu consulto não transformam o câncer naquela coisa pesada. Isso é muito confortante, então tudo ajudou para eu estar bem emocionalmente. Mas a troca com outros pacientes é muito importante. Só quem passa por aquilo realmente sabe como é.

A pandemia tem tornado este momento mais desafiador?
Camila – Passar por isso na pandemia foi bem ruim, porque sou muito de ter muitos amigos, então me vi mudando completamente minha vida. Eu tinha muita autonomia e, de repente, tive que voltar para a casa dos meus pais, não posso ver meus amigos, quase não vou a lugar nenhum, foi bem difícil no início.

Qual a sua mensagem para as mulheres neste Outubro Rosa?
Camila – Eu aconselho a qualquer sinal que sentir no seu corpo procurar ajuda, não deixar de ir ao médico, ficar atenta aos sinais, porque para mim, por exemplo, o tumor cresceu muito rápido. Se eu tivesse esperado um ano para voltar ao médico ou não tivesse dado bola para aquela dor, talvez tivesse sido fatal. A prevenção é muito importante, é fundamental procurar ajuda a partir de qualquer sinal, não ficar esperando. Para quem está enfrentando o câncer, minha mensagem é que mantenha a cabeça boa e o pensamento positivo. Não é fácil, é um trabalho de todo dia, mas isso faz muita diferença, porque, se não dá para mudar a nossa realidade, ao menos podemos torná-la a mais leve possível.

Créditos: SEDUC RS